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Penélope: A Verdadeira Odisseia Foi Ficar
30.Jun.2026

Penélope: A Verdadeira Odisseia Foi Ficar

Enquanto o mundo celebra Ulisses como o herói que venceu o mar, os monstros e os deuses, uma pergunta raramente é feita: o que aconteceu com a mulher que ficou esperando por vinte anos?

Com a estreia de A Odisseia, de Christopher Nolan, trazendo Anne Hathaway no papel de Penélope, é um bom momento para revisitar essa personagem sob uma lente que a tradição popular nunca aplicou a ela. O que Homero descreveu há três mil anos, sem saber, é um dos retratos mais precisos que a psicologia clínica reconhece hoje: o que a espera prolongada faz com a identidade de uma pessoa.

O tear como mecanismo de defesa

Na Terapia de Esquemas, desenvolvida pelo psicólogo americano Jeffrey Young, entendemos que padrões emocionais profundos ? os esquemas ? se formam na infância e se repetem ao longo da vida, geralmente como resposta a necessidades não atendidas.

Penélope vive cercada por mais de cem pretendentes que pressionam por uma decisão: aceitar que Ulisses está morto e seguir em frente. A resposta dela é clinicamente reveladora. Ela promete se casar assim que terminar de tecer uma mortalha ? e todas as noites, secretamente, desfaz o que teceu de dia.

Isso não é apenas astúcia narrativa. É o retrato de um mecanismo de adiamento ativo: ocupar o tempo presente para evitar confrontar uma decisão que ameaça a própria identidade. Penélope não está indecisa por fraqueza ? ela está protegendo uma versão de si mesma que só existe enquanto a espera continua. Se ela decide, precisa se tornar outra pessoa.

Esse padrão aparece com frequência no consultório: não é o medo do desconhecido que trava processos de luto, separações ou mudanças de carreira, mas o medo de deixar de ser quem se é dentro da história antiga.

Esquema de abandono e identidade suspensa

O esquema de abandono, descrito por Young, é a crença nuclear de que pessoas importantes vão partir ou desaparecer. Ele costuma gerar duas respostas possíveis: apego ansioso e hipervigilância, ou, no extremo oposto, uma autossuficiência rígida que nega a própria dor.

Penélope flerta com os dois. Ela mantém viva a esperança do retorno ? o que parece apego ?, mas ao mesmo tempo administra o reino e resiste à pressão social. Ela não é passiva. Ela vive uma identidade suspensa: nem viúva, nem casada, nem livre.

Psicologicamente, esse é um dos estados mais desgastantes que existem ? a ambiguidade prolongada. Pesquisas em psicologia do luto mostram que a incerteza sobre a perda de alguém é mais corrosiva para a saúde mental do que a confirmação da perda em si, porque o cérebro não consegue processar nem o luto nem a esperança de forma completa.

A prova do arco: confiança depois do abandono

Quando Ulisses finalmente retorna disfarçado, Penélope não o reconhece de imediato ? e esse é o ponto mais subestimado da história. Ela propõe um teste: quem encordoar o arco de Ulisses e acertar doze machados em sequência será seu novo marido. Apenas ele consegue.

Clinicamente, essa cena é uma metáfora extraordinária sobre confiança após o trauma de uma longa ausência. Penélope não aceita o retorno apenas pela palavra de alguém ? ela exige prova concreta, consistente com a história real. Isso reflete um padrão saudável que muitas vezes falta em relações marcadas por abandono: a recusa em entregar a confiança apenas porque alguém diz ter voltado, sem demonstrar, pelo comportamento, que é de fato quem afirma ser.

Penélope não é ingênua. Ela é uma mulher que aprendeu, durante vinte anos, a proteger sua identidade de promessas vazias.

O que a história de Penélope tem a ensinar

A Odisseia de Penélope não tem monstros marinhos nem deuses furiosos ? mas exige uma resistência psicológica talvez ainda mais difícil de sustentar do que a de Ulisses: a capacidade de manter a própria identidade intacta em meio à incerteza prolongada, sem se entregar à pressão externa nem se fechar completamente para a possibilidade de recomeçar.

Se você se identifica com o padrão de "tecer e destecer" ? adiar decisões importantes da vida para não precisar se tornar outra pessoa ? esse é exatamente o tipo de questão que pode ser trabalhada em processo terapêutico.


Weslei Albert Lino é psicólogo clínico (CRP-04/70183), especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia de Esquemas, DBT e ACT. Atende em Belo Horizonte, São Paulo e online.

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Weslei Albert Lino

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